20/12/2011

" Que me perdoe José Regio"


       


     No tempo em que os animais falavam menos do que falam hoje, havia num país muito distante, lá bem perto do mar, um burro que tinha orelhas de príncipe. Era um burro normal, burro como todos os burros umas vezes mais outras menos. Mas, de facto, o que o destinguia de todos os outros eram as orelhas.Pois é! Tinha umas orelhas de príncipe. Umas orelhas muito bonitas,sempre muito limpinhas, muito branquinhas. Eram mesmo um regalo para a vista! Ora o burro andava todo vaidoso, só porque tinha orelhas de príncipe.
     
Um dia, estava com sede e foi até ao rio, um belo rio, de águas mansas, que corria para o mar. Ao beber, viu a sua imagem na água e ficou parado! E perguntou:

       - Se sou burro, porque é que tenho estas orelhas?
    - Se tenho estas orelhas,e se são de príncipe,porque é que em vez de ser burro com orelhas de príncipe,não sou um príncipe com orelhas de burro?

     E ao pensar assim, até a sede lhe passou e desatou a correr como um burro maluco. A tia coruja, ao vê-lo perguntou-lhe:

    - Ó compadre burro, que bicho lhe mordeu, para correr dessa maneira?
   - Ó tia coruja, não foi bicho que me mordeu, mas uma ideia que me passou pela cabeça. É que eu não sou burro, não senhor, sou um  príncipe burro. Assim sendo, vou procurar o meu palácio e vou reinar.

    E a pobre coruja, na sua sabedoria, perguntou-lhe:

    - Mas quem te disse que não podes ser burro com orelhas de príncipe?

    Com esta é que o burro não contava e ficou preplexo. E de tal maneira que nunca mais falou, nem comeu, nem bebeu.
    Conta-se até que, ainda hoje, ele pensa se é burro com orelhas de príncipe ou se um príncipe burro.

                                            

M. Quintella (Artigo publicado no jornal do Banco Borges Irmão, em Junho de 1986)


          Será que ainda hoje esta história tem cabimento?



1 comentário:

Joel Braga disse...

Burro ou príncipe faz algo importante que é usar as orelhas...